


Durante os seis primeiros dias da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, foram vendidos 138.361 livros. O número ultrapassa a quantidade comercializada no ano passado em 1.571. A cada edição, desde 2006, o recorde de vendas vem sendo superado. Outro número impressionante é o de visitantes. Somente no feriado de Finados, no dia 2 de novembro, a Brigada Militar estima que duzentas mil pessoas tenham passado pelas imediações da Rua da Praia. No entanto, não são apenas os livreiros e as editoras os beneficiados com tanto movimento. O evento leva prosperidade a todo tipo de comerciante.
Há 44 anos, seu José Alves Valenscino sacia o desejo aguçado pelo olfato de quem atravessa a Rua dos Andradas. Pai de sete filhos, sustenta a família com a venda de saquinhos de pipoca. “Esse cheiro é a minha propaganda”, afirma inspirando, profundamente, como se saboreasse a guloseima através das narinas. Durante os demais dias do ano, o endereço da barraquinha do seu José é outro, em frente a uma escola, também no centro da cidade. No entanto, o que garante seu 13º salário e as férias é a Feira do Livro. “Durante a feira, chego a vender duzentos saquinhos de pipoca por dia”.
A poucos metros da barraquinha de pipoca, testemunhando a eterna conversa de Drumond e Quintana, o último lambe-lambe registra o presente dos visitantes, mas à moda antiga. Utilizando uma câmara escura de madeira, Vaceri Freitas retrata os curiosos, os casais apaixonados e os filhos acompanhados dos pais, que pagam R$ 20,00 pelas quatro imagens, em preto e branco, impressas em papel. Freitas não sabe até quando vai poder trabalhar. “Fico aqui até que continuem fabricando o negativo usado para a revelação da foto”, conforma-se. Os quarenta anos de ofício podem ser interrompidos a qualquer momento, os negativos Kentmere, importados da Inglaterra, chegam apenas duas vezes por ano à Casa do Filme, na capital. Por enquanto, o fotógrafo aproveita os finais de semana de feira para reforçar a aposentadoria.
Há também quem não goste de disputar espaço com os livros. Pintados a óleo, os quadros de decoração do artista J. Dimas são vendidos, desde 1992, na Praça da Alfândega, em frente ao shopping Rua da Praia. Bem próximo a uma das entradas da Feira do Livro, ele afirma que as pessoas não têm muito tempo para apreciar e, muito menos, para comprar a sua arte. “Não sei se o povo está sem dinheiro ou sem sensibilidade. A Feira do Livro acaba até competindo com o meu trabalho”, resigna-se.
Porto Alegre recebe, neste ano, um novo personagem a circundar a feira. Um jovem de 21 anos, saxofonista, nascido em Santa Catarina. Satisfeito com os R$ 80,00 que recebeu nas primeiras quatro horas de trabalho, Matias Gatto Lopez se prepara para ficar, pelo menos, três semanas, na capital. “A feira é uma excelente oportunidade. Além disso, sempre fico um bom tempo em cidades grandes”. Lopez está percorrendo o Brasil com um grupo de cinco amigos artistas. Eles viajam em uma Kombi, buscando liberdade para expressão de sua arte. Amante do chorinho, um dos seus compositores preferidos é Raul de Barros. Como um professor, o saxofonista fala sobre a história da música brasileira e de uma melodia, em especial, intitulada “Na Glória”. A música é uma homenagem de Raul de Barros e Ari dos Santos à Igreja da Glória, no Rio de Janeiro. Assista ao vídeo.
Para o Twitter:
Eles comercializam arte e provocam os sentidos, em plena Feira, mas não vendem livros.


